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Saudades: como definir?

  • Foto do escritor: Pauta Escoteira
    Pauta Escoteira
  • 20 de jul. de 2018
  • 3 min de leitura

Atualizado: 8 de set. de 2025


O retorno para casa, depois de uma semana intensa de aventuras, tem um sabor diferente. A rotina nos acolhe de braços abertos: o banho demorado sem fila no chuveiro, o sofá macio chamando para um descanso merecido, a televisão ligada sem compromisso e, claro, a cama quentinha, com o colchão que parece nos abraçar. Tudo isso é maravilhoso, mas basta fechar os olhos por alguns minutos para que uma sensação invada o peito: a saudade.

Sim, ela vem carregada de lembranças que parecem contraditórias. Quem diria que alguém sentiria falta do saco de dormir desconfortável, da barraca sempre em desalinho, dos espeques que nunca fincavam no lugar certo, dos pés doloridos após quilômetros de caminhada ou até mesmo do ronco insistente do vizinho de acampamento? Pois é, sentimos. Porque, no fundo, não são os incômodos que permanecem — são as histórias que eles contam.

A poeira vermelha que colava em tudo, a palha que teimava em grudar, o calor quase insuportável e o frio congelante da madrugada são apenas pano de fundo para aquilo que realmente importa: os amigos novos, os reencontros aguardados, os abraços calorosos e gratuitos, as canções que ecoavam em coro, as festas improvisadas e até os aniversários celebrados entre bandeiras e barracas. É nesse cenário que nascem as melhores memórias.

E quem poderia esquecer da trilha sonora que embalou a jornada? Do eterno “Bella Ciao” que não saía da cabeça ou do hit “Só Quer Vrau” que virou piada interna de patrulha. Entre sorrisos e lágrimas, teve espaço para tudo: do Bushcraft aos Jogos do Brasil sob um sol impiedoso, das idas à piscina às partidas de bolinha, das barracas de venda ao sabor nostálgico de um Biscoito Globo. Isso sem falar nas tradições que se encontraram e se misturaram: o tererê e o chimarrão passando de mão em mão, o “queijin com dôcindileite”, o bombom Garoto, as mariolas e bananadas, o Guaraná Jesus, o açaí e os sorvetes que refrescavam a cada esquina.

E se a comida já despertava memórias afetivas, a música completava a festa. Quem esteve lá sabe o que significou ouvir a “Marreca de SC”, sentir o ritmo do Maracatu Caboclo de Lança, vibrar com o Boi de Parintins, dançar forró, cantar sertanejo, cair no samba ou se divertir com os funks que invadiram os acampamentos. E no meio de tudo isso, frases que se eternizam, como o famoso “Pamplona na escuta”, que virou bordão entre tantos sotaques vindos dos quatro cantos do Brasil.

As filas na lojinha? Viraram ponto de encontro. O jornal de todos os dias? Registro fiel da vida de acampamento. Os memes? Combustível para muitas gargalhadas. Cada detalhe, por menor que pareça, se transformou em um fragmento de lembrança que agora pulsa no coração.


E é justamente essa mistura de momentos que dá sentido à saudade. Não é sobre sofrer, como alguns podem pensar. É sobre viver intensamente. Sobre se permitir rir, cantar, interagir, animar. É sobre “Jamborear”, palavra que ganhou um significado próprio e que só entende quem esteve lá.

Por isso, não é um adeus. É apenas um até logo. Porque novas atividades virão, mais histórias serão vividas e, inevitavelmente, outras saudades nascerão. Afinal, quem aprende a colecionar memórias sabe que a bagagem da vida é feita justamente delas: os incômodos que se transformam em histórias e os encontros que se tornam eternos.

Por Xyko Ferreira

Publicado em 20 de julho de 2018

Jornal de Campo Canto da Jurema

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